Faces familiares.

 Ou a vaga sensação de reconhecimento

Uns anos atrás - uma década ou pouco mais do que isso - a moda na internet era uma moça carioca aparentemente inteligentíssima chamada Jout Jout. 
Eram tempos diferentes para criadores de conteúdo. E o conteúdo dela era apenas sentar em frente a uma câmera cuspindo alguns lugares comuns mas tudo bem, era disso que a gente acreditava que estava precisando naquele momento.

O governo Dilma foi o enterro da minha adolescência. Não só isso mas eu estava recém casada naquela época, trabalhando como uma verdadeira condenada num emprego terrível em um shopping, sofrendo abuso de chefes incompetentíssimos... Então se uma magricela que falava sem parar quer me dizer o que devo fazer, quem sou eu? Me recusava a discutir. Ninguém achava aquilo tudo besta ou pobre de substância. Achávamos genial.

Fiz parte de grupos de outros apreciadores da Jout Jout e, é claro, também fiz parte de uma corrente de e-mails baseados naquele filme chatissimo (que vem daquele livro tão chatissimo quanto) chamado As Vantagens de Ser Invisível. Hoje em dia essa bobajada se equivale a ser fã de Dear Evan Hansen mas em 2015 ninguém julgava ninguém pela angústia jovem e mandavamos e-mails uns pros outros como os jovens angustiados que éramos.
Reli hoje alguns que enviei. 
Eram curiosamente específicos.

Geralmente eu contava sobre meu dia e começava, obviamente, com meus sonhos. Então me levantava e falava sobre drogas, sexo, casamento, medo de morrer, maquiagem, depressão, vontade de fugir da minha própria pele, aparentes e visíveis crises nervosas que me obrigavam a ver o mesmo filme todo dia à mesma hora... Pelo que contei em um desses e-mails assisti Vida de Inseto por cinco dias direto, do começo ao final. Escrevi "as vezes não quero ver mas quando ligo a tv ele está lá e não consigo desligar". Ter tv a cabo me proporcionava essa e outras manias.

Li também e-mails que as pessoas me enviavam. Em um desses uma menina me respondia sobre meu bebê. Fiquei preocupada pois não lembrava de ter contado sobre minha gravidez naquele ano mas pelo que parece contei sim. Para estranhos. Enquanto isso a maior parte do meu circulo intimo só soube que perdi uma filha do Danyllo quando postei sobre isso em 2022.

Sempre tive essa facilidade em dar detalhes da minha vida a pessoas que eu sabia que jamais iria reconhecer na calçada se nos víssemos de perto. Como uma idosa sentada em um banco esperando alguém puxar assunto por pena. Eu sempre fui assim.

É engraçado como ciclos são realmente o que dizem ser: ciclos. 
Meus diários são sempre meio parecidos, não importa minha idade. E nunca deixei de ser um livro esparramado no colo de alguém, prestes a ser lido. Não existe nada em mim a ser desvendado, ao que parece. É triste, lamentável. Mas há um que de poético em ser transparente assim. É invejável como consigo ser inflamável, não importa a aura. Mesmo com anos de terapia, diagnósticos incorretos se transmutando em diagnósticos corretos, se perceber dura no amor, se descobrir aos pedaços e depois inteira.

Relendo meus e-mails eu percebi meu vocabulário sempre muito semelhante. Meu estilo de escrita é igual desde que me entendo por gente - isso quando escrevo naturalmente e não me forço a seguir um padrão para posts, stories, conversas. Cresci assim.

Essa semana li três livros. É como florescer novamente depois da seca. O oásis se abriu.

Eu sou o que aquela mulher dos e-mails queria ser, dez anos depois.
Gosto de mim.

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