O descaso da falsa leitora.
Ou a torturante saga de uma criança exemplar.
Tenho no meu quarto uma enorme quantidade de livros, um número ridiculo que chega a quase mil. E teria ainda mais se não fosse o tipo de pessoa descuidada e generosa que doa o que pode e o que não pode.
Havia uma amiga minha que comparava ir à minha casa com o natal pois ela sempre voltava com as mãos recheadas de sacolas com perfumes, cremes, roupas, sapatos, lençóis, bijuterias e, claro, diversos livros. Talvez meu tipo de amor seja o que dá presentes e faz comidas boas para demonstrar afeição. Não sei bem o que me leva a agir assim.
Talvez seja uma imensa necessidade de agradar e me fazer de boa samaritana, mesmo que seja inconsciente.
Eu teria mais livros também se não tivesse passado os últimos dois anos afogada num relacionamento amoroso falido mas isso não vou discutir. O passado só serve para acorrentar a gente.
Fato é que tenho uma biblioteca talvez bastante impressionante. E, mais impressionante ainda (desta vez de modo perjorativo), mal tenho lido. Logo eu, que fiz por anos e anos a leitura o traço fundamental da minha personalidade. Logo eu que devorava edições quilométricas de Somerset Maugham na adolescência - roubei minha edição de Servidão Humana da biblioteca da escola.
Logo eu que sempre preferi livros a qualquer tipo de contato físico humano por mais minúsculo que seja.
Logo eu.
Acredito realmente que as pessoas consideram patético se sentir inferior por não ler mas é como me senti por bastante tempo e, acima de tudo, era como se meu cérebro estivesse atrofiando. Eu já não conseguia ter prazer em nada que me exigisse o mínimo de concentração. Não conseguia sequer ver filmes que não estivessem com o plot mastigadinho para que eu não precisasse gastar sequer um minuto pensando. Mensagens conflitantes eram sumariamente ignoradas. O conteúdo precisava me entreter, como se eu fosse um bebê viciado em seu Ipad. Horas de informações inúteis.
Não estou dizendo que entretenimento fácil é errado - mas certamente eu não estaria aqui escrevendo em um blog se estivesse me sentindo satisfeita com ele.
Dia desses chorei por videochamada com o Caíque me sentindo uma impostora. Quem eu pensava que era? Desde a infância ouvindo que era intelectual, centenas de pessoas acreditando no meu nível de cultura e enquanto isso eu recitando brainrot. Por causa do amor, por focar em relações insanas, por perder quem eu sou por telas e vídeos e vícios eu havia parado de gostar de fantasia, de mágica, de romances, de estudos e de pesquisas. Passei anos lendo menos e menos, cada vez menos e só conseguia fazer o que eu sentia que era obrigada - textos para meu TCC, principalmente.
Hoje terminei um livro.
Pela primeira vez em dois anos e vários meses terminei um livro em menos de doze horas. Os anteriores levei semanas enrolando, me debatendo, expulsando de mim uma preguiça que quase sempre me levava a remorsos terríveis.
E agora terminei um livro e imediatamente iniciei outro - que já estou terminando também, faltam menos de sessenta páginas para finalizar.
E ainda por cima, um livro de fantasia. Um livro sobre bruxas. Eu teria ouvido toda uma gama de disparates se tivesse feito isso algum tempo atrás.
Vou parar de assistir vídeos de sete horas sobre séries da Nickelodeon? Acho absolutamente improvável. Mas minha curiosidade infinita e vontade de aprender mais tem que me mover para caminhos mais tortuosos as vezes.
Desafios valem a pena.
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