Um quarto só meu.
Ou como me tornei clinicamente necessitada de um pingo de sossego.
Uma das piores coisas a acontecerem na minha vida foi o advento da internet. Não sou tão velha assim - nasci antes da internet em si mas já existia quando eu era bem pequena, embora eu só tenha tido meu primeiro e-mail aos doze anos... E curiosamente ainda é minha conta principal mas isso não vem ao caso - porém acho que ter chegado tão tarde a esse mundo me deixou um pouco zonza e vulnerável.
Na fina flor da adolescência comecei a moldar toda uma personalidade dedicada a parecer imponente e exultante online. É claro que, como quase toda mulher, também me dediquei a copiar gostos de homens que eu amava... Quase todos eles caras inteligentíssimos, cheios de referencias que eu engolia como balinhas de iogurte... Mas a minha persona cheia de vida, vocabulário vasto e jeitinho sarcástico era muito mais para impressionar sujeitos que me viam em telas pixeladas do outro lado do Brasil. Eu era - ainda sou - uma grande ringmaster do circo da minha vida.
Sempre ativa nas redes, sempre pronta a fazer a grande fofoca. Sempre pronta a contabilizar mais e mais fãs e status.
O que não quer dizer que eu era famosa. Não era. Nunca fui. Mas tive um nível de popularidade interessante por uma época, coisa que outras mulheres vagabundas sem nenhum verdadeiro talento como eu não tem em geral. E eu poderia até sorrir e me orgulhar de ter conquistado isso sem dança em aplicativo de vídeo curto porém ao menos as que fazem isso me parecem cem por cento honestas ao passo que eu sempre tive de mentir sobre quem eu era para ganhar migalhas de afeto.
Desde muito jovem aprendi que eu era engraçada, carismática, extrovertida e falastrona. Nunca aprendi a ser eu. Nunca aprendi verdadeiramente a ficar calada por uma hora ouvido musica deprimente ou ter síndrome do pânico ao ter que pedir cem gramas de presunto no mercado, nunca aprendi a ser silenciosa, pensativa, nunca aprendi a ter vergonha de cantar ou não querer achar graça nas coisas - mas, no fim, foram essas partes não obvias de mim que venceram e eu descobri que todas elas são muito mais quem eu sou do que a palhaça que faz piada com a própria desgraça.
Até fiquei bastante brava quando o homem que eu amava me disse que não me via como uma pessoa divertida, fiquei com a ofensa ardendo em mim até notar que ele estava certo. Eu não sou. Sou extremamente nervosa, ansiosa e perturbada mas também sou calma como uma chuva fininha batendo na janela. E nada disso é intrinsicamente divertido.
Mais do que ser eu mesmo, sei ser a mascara de eu mesma. E, com trinta e três anos, a mascara vai ficando gasta, surrada. A gente até tenta colar os pedaços do papel cartão mas não volta a ser igual. Nunca mais.
Tem aquele ditado que diz "Quem avisa amigo é". Como tenho poucos amigos, poucos foram os que avisaram. Mas sou agradecida a todos eles por dizerem que eu não preciso correr para chegar onde eu quero. Posso e devo chegar andando, no meu passo, no ritmo que eu consigo. E que não preciso estar sorrindo o tempo todo. Depois de anos fazendo isso, as bochechas ficam exaustas.
Que introdução dantesca para explicar porque fiz um blog no século XXI, no ano do nosso senhor 2025... Quando, na verdade, eu poderia dizer "Yeah, eu fiz porque queria paz e limpeza mental"... Não é pra isso que fazem diários? Há por trás toda uma terapia. O processo de automatização de conteúdo que tem tomado todas as redes sociais contribui pro meu cansaço mas obviamente é tudo isso que disse antes: quero ser eu como nunca fui antes.
E agora aqui estou eu, sendo eu. Irrelevante pra muita gente mas, para mim, é uma espécie de vitória agridoce.
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