Cuca fundida.

Ou uma confusão contínua

Pensei em não escrever hoje aqui.
Começou quando percebi que minhas unhas da mão direita estavam se quebrando de tanto digitar (faço faculdade online mas geralmente meu uso no notebook é absolutamente passivo e tudo que anoto é a moda antiga, em cadernos. Mal digito qualquer coisa, que dirá textos. Para meu TCC geralmente também faço anotações como faziam os Maias e os Incas ou no celular - don't ask...) e a decisão foi chegando a um ápice quando comecei a sentir uma irritante dor de cabeça que, aliás, nunca passou.
Tem muitas horas que estou assim. Nenhum remédio deu jeito.
Geralmente detesto remédios. Gosto de apelar para receitas naturais ou a boa e velha força de vontade e distração para deixar dores e agruras de lado. Então ter usado medicamentos pra isso já demonstra meu desespero.

Nada ajudou.

Mas afinal isso aqui é um diário, não é? E de qualquer maneira preciso entrar no computador para estudar. Semana de provas. 
O que custa um post?

É tanta dor que sinto meu cérebro tilintar como um sino-dos-ventos, parece que algo dentro do meu crânio está sacudindo permanentemente. Chego a ficar enjoada. Enxaqueca não é incomum para mim, principalmente de alguns anos pra cá, mas sempre me deixa enlouquecida quando passo por isso... Acho que não lido bem com qualquer coisa que envolva minha cabeça. Se fossem dores nas costas eu estaria muito mais tranquila. Infelizmente dores de cabeça são debilitantes para mim e, além de perturbada e exausta, fico extremamente estressada com qualquer barulhinho que seja... Viver com uma criança pequena que necessita de mim o tempo todo nessas circunstâncias então é a grande prova de fogo.

Hoje Nicolas estava sonolento e inquieto durante o banho. Ele morre de pavor de se ferir e, por obra do infeliz acaso, se machucou na perna alguns dias atrás. Para limpar o ferimento foi um filme de terror. Ele gritava "Para! Não quero morrer!!" como se eu estivesse prestes a esfaqueá-lo mas mesmo assim consegui. Hoje, porém, para lavar o joelho dele durante o banho foi milhares de vezes pior. Ele berrou e chorou e eu me fechei como uma ostra, botando as mãos nos ouvidos. Tive que fazer um esforço sobrenatural para não correr do banheiro e nunca mais voltar.

Esse tipo de coisa me ensina que não conseguiria ser mãe novamente. Não tenho estrutura. Detesto falar isso e parecer psicofóbica com minha própria condição mas: sou autista demais.

Quando finalmente fui corretamente diagnosticada me senti certamente muito melhor porque muita coisa que me obriguei a viver a vida inteira fez sentido para mim. E agora entendo principalmente porque certas experiências que parecem naturais, para mim, foram tão traumáticas. Porém o diagnostico também me deixou um pouco mais incerta quanto ao meu futuro porque agora sei que, como consequência de ter me mascarado a vida toda, eu mal me conheço. E, o que estou conhecendo no momento, me parece extremamente desagradavel.

Como essa história toda de ser extremamente maternal desde criança e ter nascido para ser mãe, coisa da qual sempre me gabei. Talvez eu esteja errada quanto a isso. Não sei.

Eu amo crianças do fundo do coração. Amo Nicolas como nunca amei ou irei amar alguém na vida. No entanto, em certos dias e momentos, eu não queria ter um filho. Eu não queria ter uma pessoa dependente de mim a cada segundo, implorando meu amor e meus cuidados com os maiores olhões que já vi.
Não queria ter que resolver pendências em escolas, visitar pediatras, pagar contas de vacinas para alergia. Não queria precisar da família paterna dele para poder sair e ter algumas horas para mim. Não queria estar indiscutivelmente ligada ao destino de alguém. Não queria que minhas escolhas recaíssem sobre um outro ser humano. A pressão é o que me mata.

Ter um filho atrapalhou minha vida, alguns relacionamentos, minha carreira. 

Eu ainda me sinto sonâmbula de quando em quando, como se estivesse prestes a acordar e descobrir um futuro diferente e melhor.

E, mesmo assim: não consigo imaginar minha vida de outra maneira. Sem ele. Sem as mãozinhas dele, sem a boquinha torta e a vozinha rouca do meu bebê, do bebê que gerei por nove meses no meu ventre e pari depois de dezoito horas num quarto de hospital extremamente gelado em junho de 2019.

Mas é horrível ser mãe com a cabeça estourando, meu esqueleto trêmulo de dor e minha mente lotada de inseguranças, medos e problemas.

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